 André Martines, o Transdutor, vive longe das grandes metrópoles. Em Caçapava, interior de São Paulo, o produtor trabalha numa rádio popular há três anos e sabe muito bem que nesse meio não existe música boa ou ruim. "Aqui aprendi que só existe duas músicas no mundo: a música que você gosta de ouvir e a música que você não gosta de ouvir", diz. Seu som pode lembrar Jungle, mas os vocais em português – que não carregam o estigma de soarem Ragga – são tão marcantes que logo você esquece o resto e pensa: seria isso uma espécie de variação da nossa verdadeira música eletrônica brasileira, atropofágica, periférica e visceral?
Os que se precipitarem e não forem capazes de enxergar além da comparação imediata com top producers do gênero talvez estejam cometendo um grande erro – tal como fazem com o Funk Carioca, que muitos subestimam e rejeitam por puro preconceito. A mentalidade colonizada da grande maioria sempre procura imitar o que vem de fora e acaba reproduzindo sem sucesso apenas uma caricatura do original importado. Mas o valor e a relevância do som do Transdutor está na sua capacidade de soar popular sem apelação, se apropriando de ritmos que nasceram em outras bandas mas que foram absorvidos e desfigurados por aqui, como uma grande oficina de desmanche criativa, produtiva e muito positiva. O Transdutor pode não ser um Nookie na sua melhor fase, mas com certeza tem potencial para fazer tanto barulho quanto o veterano inglês na sua terra natal. André está preparando um live pa e pretende se apresentar para o grande público. "Parece loucura, mas queremos tocar em grandes festas populares", explica.
O Tranquera bateu um papo com o produtor.
Quando você começou produzir? Por quê?
Comecei produzir em 2001, uma época puramente experimental, com intuito de aprender fazer música mesmo. Se você ouvir os primeiros sons, era bem primitivo e cheio de erros. Mas vale como história. Na época usava bateria eletrônica, teclado Casio, daqueles que vendem nas lojas Cem, e um Pentium 100. Decidi produzir quando trabalhava na fábrica da Nestlé. Sempre curti música eletrônica, mas queria fazer uma coisa ao vivo, com toda energia de uma banda de Rock'n'roll. Aí pensei: qual estilo? Puxa! Ragga Jungle! Aquela bateria sincopada, o bassline batendo nas caixas e você cantando e agitando a galera. Foi essa visão que tive em pleno horário de serviço, naquela fábrica futurista. Lembro que em 2001, fiquei de cama durante três meses e ficava o dia inteiro testando a bateria eletrônica. Aquilo foi um aprendizado muito bom. Hoje produzo algumas coisas paralelas também.
Como você cria suas produções? Como é seu processo criativo?
A maior dificuldade que tenho é o tempo. Trabalho oito horas numa rádio local chamada Capital FM. Às vezes o cansaço prega a gente e evito mexer no computador com sono. Mas o processo criativo é engraçado. O forte são as letras. A primeira etapa do processo é criar um tema. Depois é rascunhar essa letra. Imagino como será a música na cabeça, a batida, se terá trompetes, o baixo.
Quais ferramentas você usa para produzir?
Há muito tempo usava o Tuareg. Era legal aquele programa. Hoje uso um Pentium 4, 512MB. Produzo no Fruity Loops. Mas quando testo a música para live pa, aí nós usamos Live, Fruity Loops e um controlador MIDI E-MU da Creative. Acho fantástico esse instrumento.
Existe algum ponto crítico durante o processo criativo que você dedica mais tempo ou atenção especial?
Hoje a atenção especial que dou é na equalização da música. Há muito tempo gravei um monte de trabalho sem qualidade, por falta de orientação, enfim, errando e aprendendo. Estamos finalizando 14 músicas para colocar no nosso site e para fazer apresentações ao vivo.
Você acredita que seu trabalho seja originalmente brasileiro? Por quê?
Pergunta difícil. Acredito que hoje a galera que curte Funk, Black, Rap e Reggae entenderão. Aqui na rádio coloco trilha de Jungle em alguns comerciais de grandes lojas de eletrodomésticos e chamadas para transmissão de futebol. Posso dizer que as letras em português soam brasileiras, apesar dos temas serem universais. Jungle e Ragga Jungle são estilos multi-raciais. Acredito que somos mais cosmopolitas.
Para você, o que faz seu trabalho ser único, autêntico?
Acredito que são as letras que cativam. Povão gosta de música com letra.
Você acha viável fazer Jungle para as massas? Por quê?
Acredito que um baixo bem suingado e uma bateria nota pode atrair muitas pessoas, do povão mesmo. E dessa multidão, posso despertar interesse de uma nova galera que queira conhecer o estilo mais a fundo. É apenas uma idéia cultural. Como o Samba é cultural, como o Hip Hop é cultural. Não procuro glamour e essas firulas de TV, nada disso! Conheço meu lugar. Sei que esse ritmo é underground e graça a Deus temos a internet. Rádio e TV são coisas complexas para chegar lá. Aprendi que o povo gosta de coisas diferentes, de coisas doidonas também, desde que não sejam algo ofensivo. Para o povão gostar dessas coisas, é você que tem que entregar de bandeja para ele conhecer. Povão ainda não vai atrás de novidade. Nós que temos que fazer o trabalho. Aqui no Brasil, estamos passando ainda da fase industrial para a era da informação. O advento da internet não é fortemente presente no nosso dia a dia e o gosto de muitas pessoas ainda é algo massificado. Já vejo pequenos sinais de desmassificação: o sucesso do Tecnobrega no Pará, a Rede Globo perdendo sua força unânime, festivais independentes se consolidando no país, a garotada andando de carro com som alto rolando músicas diferentes no carango.
O que você acha do Funk Carioca? E do Kuduru? Na sua opinião, seu som tem alguma relação com esses gêneros?
O Funk Carioca é um movimento social assim como o Kuduru. Não devemos negar isso, afinal a tecnologia de hoje permitiu essa abertura para as pessoas criarem suas próprias músicas em casa e serem ouvidas. Gosto de ver esses movimentos assim como também o Tecnobrega, o Calypso paranaense, o Breakcore, o Psy, assim como foi o Hardcore Techno em uma época. Entre Funk Carioca e Kuduru, nosso som tem uma relação mais "do it yourself" com eles do que musicalmente falando e você sabe que o lema DIY veio do Punk, né?
O que você diria para pessoas que não conhecem Jungle e eventualmente possam pensar, "isso aí é Funk Carioca acelerado!"?
Algumas pessoas já chamaram o som da gente de batidão! Não diria nada, deixaria que elas aprendessem mais sobre o estilo por si mesmo. Afinal, tem internet hoje em dia e um amigo mais antenado poderia dar o toque. E quem gosta realmente de se informar, corre atrás! É aí que você forma o seu público!
O que sua experiência na rádio diz sobre música? O que faz as pessoas gostarem de uma coisa e não de outra? É o "jabá"? É a letra da música? O que é?
O que faz as pessoas gostarem de uma coisa e não de outra é bem mais complexo que você pode imaginar. Nesse mundo, a música é o último ítem mais importante. Para você tocar em todas as emissoras precisa ter de uma estrutura muito forte primeiro: um bom empresário, se tiver um padrinho é bom também, bons contatos, um bom número de divulgadores para rodar o Brasil todo. Precisa tocar numa rádio grande – de preferência em São Paulo, que dita as regras – para depois as estações menores seguirem a onda. Precisa ter estrutura de palco, analisar se você como artista é lucrativo. Há a dificuldade dos veículos de comunicação só quererem tocar os poucos artistas e grupos que já fazem sucesso porque eles preferem conservar a ordem do que tentar arriscar algo novo. Precisa estar constantemente na grande mídia para ser sempre lembrado. Só depois que entra a música, para ver se cai na graça do povo. Se de repente tal canção é bombardeada constantemente, acaba virando hit. Já vi vários artistas sem carisma que, por mais que tentassem, não conseguiram nada. Enfim, esse é um tema muito complexo.
O que você acha que os gringos pensam do seu som?
Fico me perguntando isso até hoje, o que será que eles pensam? Sinto que eles não pensam que não é imitação nem evolução, mas que é um Jungle diferente. A admiração maior são os vocais próprios – eles admiram produzir e cantar ao mesmo tempo, afinal o estilo é feito de muitos samples. A recepção está muito legal. Há um interesse muito forte. Não sei o que é isso.
O que você acha da mentalidade colonizada da maiorias das pessoas no Brasil? O importado é melhor? Somos capazes de fazer melhor? Ou não é por aí?
Sim, somos perfeitamente capazes de fazer melhor e original, mas temos que entender a engrenagem da coisa. Analiso o Brasil ainda como um país industrializado ou pré-industrial em muitas situações. Na Europa, nos EUA e no Japão, eles são pós-industriais. Mais do que produzir coisas, eles produzem idéias. A cultura e os festivais de todo tipo de arte são uma indústria para aqueles lado de lá, com isso eles pensam em termos de qualidade e poder de marketing. Ainda tem a educação que é forte lá e a nossa deixa muito a desejar aqui. isso influencia muito. Morro de inveja do gringo saber duas ou três línguas. Lá eles pensam a música como negócio, no bom sentido, aqui muitos consideram isso como um palavrão. Não culpo as pessoas daqui por pensarem dessa forma, isto tudo é um contexto social e histórico do país. Apenas fico um pouco contristado.
Quem toca suas produções atualmente? Quais DJs apoiam seu trabalho?
Quem apoia muito nosso trabalho é a galera do DNBOnline e do ragga-jungle.com. Tem o DJ Preecha, do Arizona, EUA, louco para a gente finalizar logo as músicas.
Quais são os planos para o futuro?
Ensaiar o Transdutor live pa, ou seja, ao vivo com toda a energia de palco. Estou nos vocais e meu amigo Daniel Borges no controlador. Gosto muito da performance do Aaron Spectre ao vivo. Fico impressionado com os vídeos no Youtube.
E se chamassem vocês para abrir um show do Calypso, vocês iriam?
Tocaremos onde chamar. Caberá aos promoteres do evento verificar se condiz um estilo como o nosso abrir o show do Calypso. Nossa atitude é mais como banda de Rock do que como banda de Axé!
Bruno Belluomini é colaborador do DNB Online |