Hoje o dubstep é conhecido nos quatro cantos do planeta, não apenas por se tratar de algo relativamente novo para a grande maioria, mas, também, porque há muita qualidade naquilo que é feito pelos seus maiores expoentes. Não fosse o trabalho duro de heróis como Paul Rose e seu Hotflush Recordings, talvez os aspectos mais intrigantes desse fértil universo sonoro ainda permanecessem escondidos, distantes do conhecimento do resto do mundo e restritos apenas à uma minoria.
Desde 2003 o Hotflush lança material relevante e segue fazendo história. São mais de vinte discos até então. Sempre sons matadores e surpreendentes. Certamente, um feito para poucas iniciativas do gênero. Seu catálogo é formado por artistas no sentido mais literal da palavra. São produtores com trabalho sólido e identidade sonora muito particular, o que garante ao selo um posicionamento privilegiado. Todo esse mérito vem da qualidade dos seus lançamentos, conhecidos e tocados por praticamente todo DJ na cena. Esse suporte faz do Hotflush uma empreitada bem sucedida, com gás de sobra para investir em novos talentos e projetos paralelos.
Space And Time é o primeiro CD do Hotflush, um registro fundamental para a cena cujo conteúdo é praticamente inédito. A compilação traz faixas de Boxcutter, Elemental, Gravious, Scuba – codinome de produção do próprio Paul Rose –, Slaughter Mob e Toastyboy. A surpresa fica por conta dos nomes Intex Systems, Jazzsteppa e Vaccine. Como se não bastasse, Vex'd e Si Begg foram convidados para remixar alguns clássicos do selo.
Direto de Berlim, Alemanha, vem o sound system Jazzsteppa. O mais interessante no trabalho desse coletivo é seu formato banda ao vivo, com MC, naipe de metais, laptop e tudo mais. Suas produções são conseqüência do processo todo. Intex Systems é o já conhecido ASC, figura de expressão considerável no mundo do Drum'n'bass, que agora ataca com timbres sintéticos e futuristas, regados à linhas de synths atmosféricos. O produtor inclusive criou um selo, o Dubline Audio, só para lançar produções de dubstep. A californiana Christine Vaccine é uma das poucas garotas na cena que produzem esse tipo de som mas a julgar pelo vigor da sua música, a mulherada está bem representada e não fica devendo nada para molecada. Vale a pena conferir seus dubs pelo Scuba, o selo irmão do Hotflush.
Em "Philly", Boxcutter surge acelerando. A produção, com cadência bem uptempo, é uma floresta de samples de toda espécie. Tudo ali parece ter sido adubado regularmente, protegido do sol e da chuva em excesso e cercado para não ser pisoteado. Esse jardim de delicados elementos sonoros cria um bosque estranhamente encantador, cheio de referências urbanas, completamente calcado na música negra. Outra obra-prima do artista é "Infraviolet", onde a ambiência cria um espaço amplo, uma caverna gigantesca, suficiente para que seus ecos se dobrem por quilômetros até sumir na mais profunda escuridão.
Elemental transita seguramente entre o Techno e o 2-Step em "Raw Material", numa mistura picante que traz bleeps digitalizados cortantes imersos num caldeirão de linhas de baixo borbulhantes. Gravious compõe arranjos de violinos para "Subterfuge" e o resultado é um belo instrumental que deve cativar os fãs de Grime. O Slaughter Mob aposta em synths ensopados e claps expressivos no lugar de caixas de bateria.
Se o primeiro remix do Vex'd para "The Knowledge" já era assustador, esse segundo se revela ainda mais fantasmagórico. Como um calabouço que sopra um vento gélido pelos seus corredores infestados de teias de aranha, Jamie e Roly transformam a clássica faixa de Toastyboy num tema gótico, maravilhosamente desfigurado. Si Begg cuida de "Angel", outra produção que recebe versão exclusiva no CD.
Concorra a duas cópias originais do CD
Bruno Belluomini é colaborador do DNB Online